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POVOS DESTRUÍDOS - Harun Yahya

POVOS DESTRUÍDOS


Capítulo 1

O Dilúvio de Noé

<< Enviamos Noé ao seu povo;
e ele permaneceu entre eles mil anos menos
cinquenta; e o Dilúvio surpreendeu esse povo
(persistindo) na sua iniquidade>>.
(Capítulo Al-Ankebut, 49:14) 

Parte integrante de quase todas as culturas, o Dilúvio de Noé é um dos episódios mais frequentemente mencionados no Alcorão. A indiferença do povo do Profeta. Noé (paz esteja com ele) perante os conselhos e avisos deste, as suas reacções e as circunstâncias que rodearam o incidente são descritas, pormenorizadamente, em muitos versículos. O Profeta Noé foi enviado com o propósito de avisar o seu povo, que se tinha afastado dos ensinamentos de Deus e adorava igualmente outros deuses, para que se dedicassem exclusivamente a louvar Deus e abandonassem as suas idiossincrasias. Apesar do Profeta. Noé ter advertido, por diversas vezes, o seu povo para que se submetesse à religião de Deus e de o ter avisado da Sua ira, mesmo assim negaram o Profeta e continuaram a adorar outros deuses. Conforme o Capítulo Al-Mumenun (Os Crentes), o desenrolar dos acontecimentos foi o seguinte:

<< E, na verdade, Nós enviamos Noé ao seu povo e ele disse: ─ Ó meu povo! Servi a Deus! Vós não tendes outra divindade além de Ele. Não (O) temeis? Mas os chefes do seu povo, que eram descrentes, disseram: ─ ele é, apenas, um mortal como vós que pretende ser superior a vós. Tivesse Allah querido por certo que faria baixar os anjos. Nada disto ouvimos no caso de nossos pais dos tempos antigos.

 

O Profeta Noé avisando o seu Povo da Punição de Deus

<< Enviamos Noé ao seu povo (com a Ordem): “Avisa o teu Povo, antes que lhe chegue um doloroso castigo>>.      (Capítulo Nuh – 71:1)

(Noé disse:) << E logo sabereis para quem virá o castigo que o aviltará e sobre quem cairá uma eterna maldição>>.(Capítulo Hud – 11:39)

(Noé disse:) << Não deveis adorar ninguém, senão a Deus, porque temo para vós o castigo de um dia doloroso>>.(Capítulo Hud – 11:26)

 

A Negação do Profeta Noé pelo seu Povo

Os chefes do seu povo disseram: << Ah! Vemos claramente que divagas (em espírito)>>   (Capítulo Al-Araf – 7:60)

Eles disseram: << Ó Noé! Tu tens disputado connosco e multiplicas as disputas connosco; fa, portanto, baixar agora sobre nós isso com que nos ameaças, se falas verdade”>> (Capítulo Hud – 11:32)

<< Noé construiu a Arca e sempre que os chefes do seu povo passavam perto fa iam pouco dele. Ele disse-lhes: ─ fa ei pouco de nós mas, nós despre amovos enquanto troçais.>>   (Capítulo Hud – 11:38)

  Os chefes dos descrentes de entre o seu povo disseram:   << Esse não é mais do que um homem como vós, que quer assegurar a sua superioridade (sobre vós). Se Allah quisesse, teria enviado anjos (por mensageiros). Jamais ouvimos tal coisa dos nossos antepassados. Ele não é mais do que um homem possesso! Porém, suportai-o temporariamente>>. (Capítulo Al-Muminun – 23:24-25)

  << Antes deles, o povo de Noé havia desmentido os mensageiros; desmentiram o Nosso servo, di endo: “Eis um possesso!”, repudiando-o por todas as vias>>.(Capítulo Al-Qamar – 54:9)   


Desrespeito por Aqueles que Seguem o Profeta Noé

Porém, os chefes dos descrentes entre o seu povo disseram: << Não vemos em ti mais que um homem como nós, e não vemos a te seguir mais do que a nossa plebe irreflexiva; tão-pouco consideramos que tendes (vós e os vossos seguidores) algum mérito sobre nós; outrossim, cremos que sois uns mentirosos>>. (Capítulo Hud – 11:27)

Elem disseram: << Como havemos de crer em ti, uma vez que só te segue a plebe? Respondeu-lhes: E que sei eu daquilo que fizeram do passado? Em verdade, seu côputo só incumbe ao meu Senhor, se porventura sabeis. E eu não estou aqui para repelir os crentes. Eu sou apenas um simples conselheiro>> (Capítulo Ach-Chuara – 26:111-115)

 

O Conselho de Allah ao Profeta Noé para que Não Lamente

E isto foi revelado a Noé: << Ninguém de entre o teu povo acreditará¸a não ser aquele que já é crente. Então não mais lamentes as suas (más) acções>> (Capítulo Hud – 11:36)

 

Orações do Profeta Noé

(Noé:) << Por conseguinte, julga Tu (Allah) entre nós, um julgamento conclusivo, e salva-me a mim e aos crentes que estão comigo>> (Capítulo Ach-Chuara – 26:118)

Então apelou ao seu Senhor: << Sou um homem já sem recursos: socorre-me!>> (Capítulo Al-Qamar – 54:10)

(Noé:) Ele disse: << Meu Senhor! Apelei ao meu povo noite e dia; Mas o meu apelo só aumenta a (sua) fuga (ao Bem)>>.  (Capítulo Nuh – 71:5-6)

(Noé:) disse: << Meu Senhor! socorre-me, pois eles acusam-me de falsidade!>>. (Capítulo Al-Muminun – 23:26)

 

A Construção da Arca

<< E constrói uma Arca sob os Nossos olhos e sob a Nossa inspiração, e não (mais) Me peças em favor dos iníquos: pois serão brevemente afogados (no Dilúvio)>>  (Capítulo Hud – 11:37)

 

A Destruição do Povo do Profeta Noé por Afogamento

<< Mas eles rejeitaram-no, e Nós poupámo-lo juntamente com aqueles que o acompanharam na Arca: mas afogámos no Dilúvio aqueles que rejeitaram os Nossos Versículos. Era sem dúvida um povo cego!>> (Capítulo Al-Araf – 7:64)

<< A partir daí afogámos aqueles que ficaram para trás>>. (Capítulo Ach-Chuara – 26:120)

<< Enviámos Noé ao seu povo, e ele lidou com eles mil anos menos cinquenta: mas o Dilúvio afogou-os enquanto (persistiam em) pecar>>. (Capítulo Al-Ankabut – 29:14)

<< Salvámo-lo e aqueles que a ele se juntaram, por Nossa piedade, e arrancámos as raízes àqueles que rejeitaram os Nossos Verículos, porque não eram fiéis>>. (Capítulo Al-Araf – 7:72)

 

A Destruiçáo do “filho” do Profeta Noé

O Alcorão relata o diálogo entre Noé e seu filho, no início do Dilúvio:

<< Então a Arca flutuou com eles pelas ondas (altas) que nem montanbas, e Noé chamou pelo seu filho, que se tinha afastado (do resto)”, e disse-lhe: Ó filho meu, embarca connosco e náo fiques com os descrentes!

<< Porém, ele disse: Refugiar-me-ei sobre um monte, que me livrará da água. Retrucou-lhe Noé: Não há salvação para ninguém, hoje, do desígnio de Deus, salvo para aqueles de quem Ele se compadecer. E as ondas os separaram, e o filho foi um dos afogados>>. (Capítulo Hud – 11:42-43)

 

Salvação dos Crentes do Dilúvio

  << Então poupámo-lo e àqueles que com ele se encontravam, na Arca cheia (com todas as criaturas)>>.  (Capítulo Ash-Shuara – 26:119)

  “ E salvámo-lo e aos companheiros da Arca, e fizemos da (Arca) um Sinal para todos os povos!”  (Capítulo Al-Ankabut (A Aranha) – 29:15)

 

As Características Físicas do Dilúvio

  << Abrimos então as portas do céu, de onde irromperam as águas torrenciais. E fizemos com que da terra brotassem nascentes, para que toda a água se juntasse (e subisse) para atingir o nível decretado. E o conduzimos (Noé) numa (Arca) feita de largas tábuas encavilhadas...>> (Capítulo Al-Qamar – 54:11-13)

  << Até que, quando se cumpriu o Nosso desígnio e jorraram as fontes (da terra), dissemos (a Noé): Embarca nela  (a Arca) um casal de cada espécie, juntamente com a tua família, excepto aquele sobre quem tenha sido pronunciada a sentença, e embarca os que creram. Mas não creram com ele, senão poucos. Então a Arca flutuou com eles pelas ondas (altas) que nem montanbas, e Noé chamou pelo seu filho, que se tinha afastado (do resto): Meu filho! embarca sonnosco, e não permaneças com os descrentes!>> (Capítulo Hud – 11:40-42)

  Então lhe revelamos: << Constrói uma Arca sob a Nossa vigilância e segundo a Nossa revelação. E quando se cumprir o Nosso desígnio e a água transbordar do forno, embarca nela um casal de cada espécie, juntamente com a tua família, excepto aquele sobre quem tenha sido pronunciada a sentança; e não intercedas junto a Mim em favor dos iníquos, pois que serão afogados>>.  (Capítulo Al-Muminun – 23:27)

 

Aportar da Arca num Local Alto

  E foi dito: << Ó Terra! absorve as tuas águas! Ó céu! Afasta de ti as nuvens! E as águas baixaram e o desígnio foi cumprido. E a Arca se deteve sobre o Monte Al-Judi. E foi dito: Distância com o povo iníquo!>> (Capítulo Hud – 11:44)

 

O Significado Pedagógico do Incidente do Dilúvio

  << Nós, em verdade, quando as águas (do Dilúvio) transbordaram, levamo-vos na Arca, para que vos servisse de Mensagem, e para que os ouvidos (que escutassem a lenda) a guardassem na sua memória e retivessem os seus (ensinamentos) na lembrança>> (Capítulo Al-Haaqqa – 69:11-12)

 

O Louvor de Allah ao Profeta Noé

  << Que a paz esteja com Noé, entre todas as criaturas! Em verdade, assim recompensamos os benfeitores. Pois ele era um dos Nossos servos fiéis>>.    (Capítulo As-Saaffat – 37:79-81)

 

Foi o Dilúvio uma Catástrofe localizada?

  Aqueles que negam a realidade do Dilúvio de Noé, baseiam a sua tese na ideia de que um dilúvio à escala mundial é impossível. Por outro lado, essa sua tese de negação da ocorrência de semelhante dilúvio é um ataque dirigido ao Alcorão. De acordo com tal tese, todos os Livros Sagrados, incluindo o Alcorão, que defendem a realidade do Dilúvio mundial, incorrem num erro. Todavia esta tese não é válida relativamente ao Alcorão que foi revelado por Allah e é o único Livro sagrado inalterado. A razão disto é que no Alcorão o incidente do Dilúvio é encarado de uma perspectiva bastante diferente da do Pentateuco e das lendas do Dilúvio narradas em diversas culturas. O Pentateuco, constituído pelos cinco primeiros livros do Antigo Testamento, descreve um Dilúvio cósmico que cobriu toda a Terra. O Alcorão não oferece semelhante descrição, pelo contrário, os versículos relevantes relatam um Dilúvio local, que não abrangeu o mundo, mas unicamente puniu o povo de Noé que por ele tinha sido previamente avisado.      Quando se analisam as narrações do Dilúvio no Antigo Testamento e no Alcorão, esta diferença é facilmente observada. No Antigo Testamento, que foi objecto de muitas alterações e adições ao longo de toda a História, o início do Dilúvio é descrito da seguinte forma:

  << E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a Terra, e que toda a imaginação dos pensamentos do seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a Terra, e pesou-lhe em Seu coração. E disse o Senhor: Destruirei, de sobre a face da terra, o homem que criei, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até a ave dos céus; porque Me arrependo de os haver feito. Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor>>     (Génesis, 6:5-8)

  Mas no Alcorão está escrito que não foi o mundo inteiro, mas sim unicamente o povo de Noé foi dizimado. Assim como o Profeta Hud, que foi enviado ao povo de Ad (Capítulo Hud – 11:50), ou o Profeta Salih, enviado ao povo de Thamud, ou qualquer um dos outros Profetas, o Profeta Noé  somente foi enviado ao seu próprio povo e o Dilúvio só causou a desaparição deste. Enviámos Noé ao seu povo (com uma missão):  

  << Venho junto de vós com um Claro Aviso: Que não adoreis ninguém, salvo a Deus: Temo verdadeiramente para vós o castigo de um dia terrível>> (Capítulo Hud – 11:25-26)

  Os que pereceram foram aqueles que ignoraram totalmente a proclamação da mensagem pelo Profeta Noé e persistiram na rebelião. Os versículos seguintes são suficientemente explícitos por forma a não deixarem margem para dúvida:

  << Mas, eles rejeitaram-no, e Nós poupámo-lo, e áqueles que o acompanbaram na Arca: mas dizimámos no Dilúvio aqueles que rejeitaram os Nossos Versículos, porque constituíam um povo cego!>> (Capítulo Al-Araf – 7:64)

  “ Salvámo-lo, e a quem com ele estava, mercê da Nossa misericórdia, e extirpamos aqueles que rejeitaram os Nossos Versículos, porque não eram fiéis”.  (Capítulo Al-Araf – 7:72)

  Além do mais, no Alcorão, Allah refere que uma comunidade não será destruída se nenhum Mensageiro lhe tiver sido enviado. A destruição só ocorrerá caso um arauto já tenha chegado junto deste povo em particular e caso nele não acreditem. É descrito no Capítulo Al-Qassas – 28:59)

  “ E nunca o teu Senhor destruiu as cidades antes que fizesse surgir na sua cidade-mãe um Mensageiro que lhes recitasse os Nossos Versículos. E nunca Nós destruiríamos as cidades se os seus habitantes não fossem iníquos”.  

  Dizimar um povo sem que a este não tenha enviado quaisquer Mensageiros, não é a Maneira de actuar de Allah. Com a função de Mensageiro foi o Profeta Noé enviado ao seu povo. Logo, Allah não destruiu comunidades às quais não haviam sido enviados Mensageiros; somente destruiu o povo do Profeta Noé.   Estas afirmações no Alcorão clarificam o facto de o Dilúvio de Noé ter sido um desastre local e não cósmico. As escavações efectuadas na região arqueológica onde se supõe que o Dilúvio terá ocorrido ─ que analisaremos mais tarde ─ comprovam que o Dilúvio não foi um incidente cósmico abrangendo toda a Terra, mas sim uma catástrofe de alargadas proporções que se abateu sobre uma determinada zona da Mesopotâmia.

 

Foram todos os Animais Levados para Bordo?

  Os intérpretes da Bíblia Sagrada acreditam que o Profeta Noé levou para bordo da Arca todas as espécies de animais da Terra e que o género animal foi salvo da extinção graças àquele. De acordo com esta crença, todos os animais da Terra foram agrupados e levados para bordo.   Aqueles que defendem esta tese enfrentam certamente dificuldades em variados aspectos. As questões que se levantam relativamente à forma como os animais a bordo teriam sido alimentados, albergados, como os seus dejectos teriam sido limpos ou como teriam sido mantido separados uns dos outros, são impossíveis de ser respondidas. Mais ainda, permanece a questão da reunião de animais de diferentes continentes ─ mamíferos dos Pólos, cangurús da Austrália ou bisontes próprios da América. E seguem-se mais questões relativas à forma como foram capturados e mantidos fora dos seus ambientes naturais animais perigosíssimos, venenosos como cobras e escorpiões, ou selvagens, até que o Dilúvio cessasse.

São estas as questões com as quais a Antigo Testamento se debate. No Alcorão não existe qualquer afirmação de que todas as espécies animais da Terra tenham sido levadas para bordo. Como mencionámos anteriormente, o Dilúvio teve lugar numa determinada região. Assim sendo, os animais levados para bordo teriam sido unicamente aqueles que viviam na região onde o povo do Profeta Noé residia.  

De qualquer modo, é evidente que se tornaria impossível a tarefa de reunir todas as espécies animais dessa região. Torna-se dificil imaginar o Profeta. Noé e o escasso número de crentes que estavam com ele (Capítulo Hud – 11:40) a partirem em todas as direcções possíveis  com o propósito de recolherem os companheiros de centenas de espécies animais nas proximidades. É inclusivamente muito pouco provável que recolhessem as espécies de insectos de entre os animais da região; para não falar de conseguirem diferenciar entre machos e fêmeas! É esta a razão pela qual é mais sensato pensar que os animais reunidos teriam sido aqueles que seriam mais facilmente recolhidos e mantidos, especialmente os animais domésticos de utilidade para o homem. Assim, o Profeta Noé teria mais provalvemente levado para bordo vacas, carneiros, cavalos, galinhas, galos, camelos e animais similares, pois estes seriam os animais essenciais para estabelecer uma vida nova, numa região que teria sido grandemente privada dos seus recursos naturais devido ao Dilúvio.  

Aqui o essencial a reter é que a sabedoria divina de Deus na ordem dada ao Profeta Noé para que recolhesse os animais, reside no facto de ser orientada no sentido da recolha de animais necessários para a vida nova a ser estabelecida depois do Dilúvio, e não na preservação do género animal. Dado o Dilúvio ser local, não se punha em questão a extinção dos animais. Seria até bastante provável que no decurso do tempo após o Dilúvio, animais de outras regiões migrassem para essa área e voltassem a preencher a região com a diversidade anterior. O importante era que se restabelecesse a vida na região logo após o Dilúvio, propósito que estaria na base da escolha dos animais a reunir.

 

Como Subiram as Águas?

  Outra polémica relativa ao Dilúvio reside na possibilidade de as águas terem subido suficientemente por forma a cobrir as montanhas. Como é sabido, o Alcorão informa-nos que a Arca ficou presa em “Judi”, após o Dilúvio. O significado da palavra “Judi” é geralmente o de o nome de uma montanha específica, enquanto que a palavra em Árabe é sinónima de “lugar alto ─ monte”. Não deverá, assim, olvidar-se que no Alcorão a palavra “Judi” pode ter sido utilizada não com o significado do nome de uma montanha específica, mas sim para descrever como a Arca teria ficado presa num logar alto. Igualmente, o significado acima mencionado da palavra “Judi” pode muito bem insinuar que as águas alcançaram uma determinada altura, mas não tão elevada quanto o nível das montanhas, isto é, que as águas não cobriram toda a Terra e montanhas como é descrito no Antigo Testamento, mas sim só uma determinada região.

 

A Localização do Dilúvio de Noé

  As Planícies da Mesopotâmia são habitualmente sugeridas como a localização provável da ocorrência do Dilúvio do Profeta Noé. Nesta região estão estabelecidas as mais antigas e refinadas civilizações da História. Além disso, o facto de se situar entre os rios Tigre e Eufrates, faz com que esta região seja geograficamente perfeita para uma grande inundação. Uma das razões que mais contribuiu para os efeitos do Dilúvio reside na probabilidade de estes dois rios terem transbordado e inundado a região.   A segunda razão pela qual esta região é aceite como a localização do Dilúvio é de índole histórica. Nos registos de várias civilizações da área podem descobrir-se diversos documentos que fazem menção a um Dilúvio que teve lugar no mesmo período. Tendo testemunhado a destruição do povo de Noé, estas civilizações sentiram provavelmente a necessidade de registar toda a ocorrência e seu resultado. É sabido que a grande maioria das lendas do Dilúvio são originárias da Mesopotâmia. Todavia, o mais importante são os achados arqueológicos. Estes corroboram que uma enorme inundação ocorreu na região. Como iremos analisar detalhadamente nas páginas seguintes, esta inundação causou um hiato na civilização. Nas escavações, os vestígios aparentes de um evento de semelhantes proporções foram trazidos à luz do dia.   As escavações realizadas na região Mesopotâmica revelam que, por muitas vezes ao longo do História, esta região sofreu variados desastres resultantes de inundações e do transbordar dos rios Tigre e Eufrates. Por exemplo, por volta do 2°. milénio A.C., no tempo de Ýbbi-sin, o governante do grande país de Ur situado ao sul da Mesopotâmia, um ano é assinalado como “vindo a seguir a um Dilúvio que anulou as fronteiras entre os céus e a terra.” (1) Cerca de 1700 A.C., na altura do Hammurabi da Babilónia, um ano é assinalado pelo incidente da “destruição da cidade de Eshnunna por uma inundação.”   No Século 10°. A.C., na época do governante Nabu-mukin-apal, tinha ocorrido uma inundação na cidade de Babilónia. (2) Depois de Cristo, nos séculos 7°., 8°., 10°., 11°. e 12°., inundações de proporções consideráveis teriam tido lugar na região. No Século 20°., o mesmo ocorreu em 1925, 1930 e 1954. (3) Torna-se claro que a região é atreita a inundações e que, como nos indica o Alcorão, é muito possível que um grande Dilúvio possa dizimar todo um povo.

 

As Provas Arqueológicas do Dilúvio


Uma ilustração do Dilúvio de Noé

Não é pura coincidência que na actualidade nos deparemos com vestígios da maioria das comunidades cuja destruição é narrada no Alcorão. As provas arqueológicas apoiam o facto de quanto mais súbito é o desaparecimento de uma comunidade, mais provável se torna a descoberta dos seus desojos. Na eventualidade do repentino desaparecimento de uma civilização, resultante de catástrofes naturais, migrações súbitas ou guerras, os vestígios desta civilização serão melhor preservados. As casas que foram habitadas por essas pessoas e as ferramentas que utilizaram no seu dia-a-dia ficam, rapidamente, soterradas. Permanecem, então, preservadas da acção humana por um espaço de tempo considerável, vindo a revelar-se, aquando da sua descoberta, de extrema importância como factores elucidativos do passado.

É desta forma que, actualmente, uma quantidade de provas do Dilúvio de Noé foram descobertas. Sendo a sua ocorrência calculada cerca do 3°. milénio A.C., o Dilúvio causou o fim momentâneo de toda uma civilização, e o surgimento de uma nova em seu lugar. Daí que as provas aparentes do Dilúvio tenham sido mantidas por milhares de anos para que nos pudessem servir de aviso.

Diversas escavações foram feitas com o intuito de investigar a inundação que cobriu as planícies da Mesopotâmia. Naquelas que foram levadas a cabo na área, foram encontrados vestígios, em 4 cidades principais, de uma inundação que só poderia ter ocorrido como resultado de um grande Dilúvio. Estas são as importantes cidades da Mesopotâmia: Ur, Erech, Kish e Shuruppak.

As escavações levadas a cabo nestas cidades revelaram que todas as quatro foram vítimas de um Dilúvio cerca do 3°. milénio A.C.


No tempo do Profeta Abraão, prevaleciam, na região da Mesopotâmia, religiões politeístas. Uma das maiores divindades era o deus-Lua, “Sin”. O povo fazia estátuas destes deuses e adorava-as. À esquerda pode ver-se uma estátua de “Sin”. A figura em forma de crescente é claramente perceptível no peito da estátua.

Analisemos primeiramente as escavações na cidade de Ur.

Os mais antigos vestígios de uma civilização descobertos nas escavações na cidade de Ur, que é hoje em dia chamada “Tell al Muqqayar”, datam de tão cedo como 7000 A.C. Como um dos locais que albergou uma das mais antigas civilizações, a cidade de Ur foi um local de estabelecimento de diversas e sucessivas culturas.

Os achados arqueológicos descobertos na cidade de Ur demonstram que o processo civilizacional foi ali interrompido no seguimento de uma gigantesca inundação, e que mais tarde novas civilizações aí si iniciaram. A primeira escavação no local foi conduzida por R.H. Hall do British Museum. Leonard Woolley, que tomou a seu cargo o prosseguimento das escavações a seguir a Hall, supervisionou igualmente uma escavação organizada pelo British Museum em parceria com a University of Pennsylvania. As escavações conduzidas por Woolley, de um substancial impacto mundial, decorreram entre 1922 e 1934, e tiveram lugar no meio do deserto entre Baghdad e o Golfo Pérsico. Os primeiros fundadores de Ur eram um povo originário do norte da Mesopotâmia e autodenominavam-se “Ubaidianos”. Iniciaram-se escavações para tentar obter dados relativos a este povo. As escavações de Woolley são descritas como se segue pelo arqueólogo alemão Werner Keller:
 
<< Os túmulos dos reis de Ur ─ como baptizou Woolley, devido a todo o seu júbilo na descoberta, as campas de nobres sumérios, cujo resplendor real foi posto a descoberto quando as picaretas dos arqueólogos se concentraram numa elevação de cinquenta pés a sul do templo e revelaram uma longa fila de campas sobrepostas. As câmaras de pedra eram verdadeiras arcas de tesouros, pois encontravam-se repletas de preciosos frascos, jarros e vasos maravilhosamente esculpidos, pratos e travessas em bronze, mosaicos de madrepérola, lápis lazuli e prata, que rodeavam estes corpos que se tinham transformado em pó. Contra as paredes encontravam-se harpas e liras. “Quase em simultâneo” ─ escreveu mais tarde no seu diário, ─ foram feitas descobertas que corroboraram as nossas suspeitas. Imediatamente abaixo do piso de uma das campas encontrámos, numa camada de cinzas de madeira, numerosas tábuas de barro, cobertas por inscrições em caracteres de um tipo muito arcaico que o das inscrições nas campas. A julgar pela natureza da escrita, as tábuas podiam datar-se de 3000 A.C.. Eram portanto dois ou três séculos mais antigas que as campas. As picaretas foram cada vez mais fundo. Continuamente surgiam novas camadas, com fragmentos de jarros, potes e taças. Os peritos concluíram que a loiça surpreendentemente se mantinha inalterada. Tinha exactamente o mesmo aspecto da que fora descoberta nas campas dos reis. Dir-se-ia que durante séculos a civilização suméria não tinha sofrido alterações significativas. Devem ter, com essa conclusão, ficado imediatamente deveras surpresos. Quando, depois de vários dias se terem passado, alguns dos trabalhadores de Woolley lhe terem informado “Estamos ao nível do chão”, ele desceu ao piso do fosso para se certificar. O seu primeiro pensamentofoi: “Por fim, é mesmo isto”. Era areia, areia pura, de um tipo que só poderia ter sido depositado pela acção da água.

Decidiram prosseguir e aprofundar ainda mais o fosso. Cada vez mais fundo foram as picaretas: três pés, seis pés ─ continuavam a encontrar lama pura. De repente, quando chegaram aos dez pés, a camada de lama desapareceu tão abruptamente como havia aparecido. Sob este depósito de barro com praticamente dez pés de profundidade, tinham novamente encontrado vestígios de habitação humana. A aparência e qualidade da loiça eram notavelmente diferentes. Aqui eram de fabrico manual. Não existiam quaisquer vestígios  de metal. O único acessório primitivo encontrado era feito de pedra lascada. Devia pertencer à Idade da Pedra! O Dilívio ─ era a única explicação possível para este enorme depósito de barro sob a elevação em Ur, que separava, sem margem para dúvida, duas épocas distintas de habitação. O mar tinha marcado a sua inconfundível presença, deixando para trás pequenos organismos marinhos incrustados na lama>>. (4)

As análises microscópicas revelaram que esta grande camada de barro sob a elevação em Ur se tinha aí acumulado como resultado de um Dilúvio, de proporções capazes de aniquilar toda a antiga civilização Suméria. O épico de Gilgamesh e a história de Noé uniam-se num mesmo lugar; um profundo fosso escavado no deserto da Mesopotâmia.   Além do mais, Max Mallowan relatou os pensamentos de Leonard Woolley, que afirmou que tal camada de aluvião só poderia ser o resultado de uma catástrofe diluviana. De igual modo, Woolley descreveu a camada que separa a cidade Suméria de Ur da cidade de Al Ubaid, com a sua  loiça pintada, como os restos do Dilúvio. (5)   Estes mostravam que a cidade de Ur era um dos locais que tinham sido afectados pelo Dilúvio. Werner Keller enfatizou a importância da escavação mencionada acirna afirmando que os vestígios de uma cidade sob uma camada de lama comprovavam que aí teria acontecido um Dilúvio. (6)

Uma outra cidade de Mesopotâmia apresentando vestígios do Dilúvio é a cidade de Kish dos Sumérios, mais conhecida por Tall Al-Ubaimer. De acordo com antigas fontes de origem Suméria, esta cidade fora o “local da primeira dinastia pós-diluviana”. (7)


A cidade de Shuruppak no sul da Mesopotâmia, hoje denominada Tall Fa’rah, apresenta igualmente marcas do Dilúvio. A investigação arqueológica nesta cidade foi encabeçada por Erich Schmidt da University of Pennsylvania, entre 1920 e 1930. Estas escavações puseram à vista três camadas de habitação estendendo-se temporalmente do período pré-histórico à 3ª dinastia de Ur (aprox. 2112 a 2004 A.C.). As descobertas mais significativas foram ruínas de casas bem edificadas e tábuas com escrita cuneiforme, registos administrativos e listas de palavras, indiciando uma sociedade altamente evoluída, existindo já no final do 4°.  milénio A.A. (8)   O ponto principal a reter a este respeito é que aconteceu um enorme Dilúvio nesta cidade cerca de 2900-3000 A.C.. De acordo com o relato de Mallowan, Schmidt tinha atingido, 4 a 5 metros abaixo do solo, uma camada amarela de terra constituída por uma mistura de barro e areia (camada esta que se formou com o Dilúvio). Esta camada estava mais próxima do nível da planície do que os túmulos, e podia ser observada à volta de todos aqueles. Schmidt definiu esta camada feita de uma mistura de barro e areia, que tinha persistido desde o tempo do Antigo Reino de Cemdet Nasr, como “areia originária do rio” e associou-a ao Dilúvio de Noé. (9)

Igualmente, nas escavações da cidade de Shuruppak, foram descobertos os restos de uma inundação, que correspondiam aos anos 2900-3000 A.C. Provavelmente a cidade de Shuruppak foi tão afectada pelo Dilúvio quanto as outras. (10)   O mais recente local comprovadamente afectado pelo Dilúvio é a cidade de Erech ao sul de Shuruppak, conhecida como Tall Al-Warka. Nesta cidade encontra-se como nas outras uma camada de aluvião. Esta camada é, como nas outras, datada de 2900-3000 A.C.. (11)

Como é do conhecimento geral, os rios Tigre e Eufrates dividem toda a Mesopotâmia de uma ponta a outra. Aparentemente, durante o incidente, estes dois rios e muitas outras origens de água, pequenas e grandes, transbordaram e causaram uma gigantesca inundação à qual se veio juntar a água da chuva. O incidente é descrito no Alcorão: 

<< Abrimos então as portas do céu, de onde irromperam as águas. E fizemos com que da terra brotassem nascentes, para que toda a a água se juntasse (e subisse) para atingir o nível decretado>>. (Capítulo Al-Qâmar – 54:11-12)

  Quando se analisam um por um cada um dos factores causadores do Dilúvio, assemelham-se todos a fenómenos naturais. O que torna este incidente milagroso reside no facto de terem ocorrido simultâneamente e de Noé deles ter avisado previamente o seu povo.   A compilação das pistas obtidas através dos estudos concluídos revelou que a área do Dilúvio abrange aproximadamente 160 km (de largura) de este a oeste, e 600 km (de comprimento) de norte a sul. Isto demonstra que o Dilúvio cobriu todas as planícies da Mesopotâmia. Quando examinamos a ordem das cidades Ur, Erech, Shuruppak e Kish, que apresentam os vestígios do Dilúvio, chegamos à conclusão de que estão alinhadas. Portanto o Dilúvio deverá ter afectado estas cidades e seus arredores. Deve igualmente acrescentar-se que, cerca de 3000 A.C., a estrutura geográfica da planície da Mesopotâmia era bastante diferente da actual. Nessa altura, o leito do rio Eufrates localizava-se mais a este do que no presente; o seu percurso passava po Ur, Erech, Shuruppak e Kish. Com a abertura das “fontes do céu e da terra”, poderá dizer-se que o rio Eufrates transbordou e espalhou-se, destruindo as quanto cidades atrás mencionadas.

 

As Religiões e Culturas Que Mencionam o Dilúvio

Dado a conhecar a quase todos os povos, através dos Profetas que transmitiam a Religião da Verdade, o Dilúvio tornou-se numa lenda para essas comunidades, fundindo-se com diversas degenerações e extensões.   Allah deu a conhecer aos povo o Dilúvio de Noé através dos Mensageiros e dos livros que enviou às diferentes comunidades para que lhes servisse de aviso e exemplo. Mas, de cada vez, os textos se afastam mais dos seus originais, e as descrições do Dilúvio são aumentadas por elementos mitológicos. O Alcorão é a única fonte que se encontra de acordo com as descobertas científicas. Isto só acontece porque Allah protegeu o Alcorão de qualquer alteração e não permitiu que o seu original fosse corrompido. De acordo com o seguinte julgamento do Alcorão, <<Nós Enviámos, sem dúvida, a Mensagem; e somos o Seu Guardião (da corrupção)>>. (Capítulo Al-Hijr – 15:9), o Alcorão encontra-se sob a especial protecção de Allah.   Na última parte deste capítulo dedicado ao Dilúvio, analisaremos como o incidente é ilustrado ─ embora largamente corrompido ─ em várias culturas e no Antigo e Novo Testamento.

 

O Dilúvio de Noé no Antigo Testamento

O Pentateuco, o livro verdadeiramente revelado ao Profeta Moisés, perdeu o seu carácter de originalidade com o passar do tempo e teve partes alteradas pelos líderes da comunidade Judaica. Aquilo que todos os outros Profetas enviados aos Filhos de Israel, depois do Profeta Moisés, anunciaram, foi sujeito exactamente ao mesmo tipo de tratamento. Portanto, esta característica do “Pentateuco Alterado”, que perdeu a sua originalidade, leva-nos a considerá-lo não como um livro sagrado, mas sim como um livro de história. Previsivelmente, esta estrutura e as contradições que o Pentateuco Alterado contém encontram-se  bem patentes no episódio de Noé, apesar de este conter, esporadicamente, algum paralelismo com o Alcorão.
 
De acordo com o Antigo Testamento, Deus proclama a Noé que todos, salvo os crentes, seriam destruídos por a terra estar plena de violência. Para este fim, Ele ordena-lhe que construa uma arca e descreve detalhadamente a forma de o fazer. Diz-lhe igualmente que leve com ele a sua família, os seus três filhos e suas mulheres, além de um par de cada ser com vida e algumas provisões.
 
Sete dais mais tarde, quando chega a altura do Dilúvio, todas as fontes subterrâneas são abertas, assim como as janelas do céu e inicia-se um grande dilúvio. Isto dura quarenta dias e quarenta noites. A embarcação navega sobre águas que cobrem montanhas e picos. Assim os que estão a bordo com Noé são salvos e todos os outros perecam afogados, levados pelas águas do Dilúvio. A chuva pára depois do Dilúvio que dura 40 dias e 40 noites e as águas começam a baixar 150 dias depois.
 
Depois disso, o barco repousa sobre os montes de Ararat (Aôrý) no sétimo mês, ao décimo sétimo dia do mês. Noé manda uma pomba par apurar se as águas retrocederam completamente e quando verifica que a mesma não regressa, conclui que as águas retrocederam completamente. Deus ordena-lhes que abandonem a embarcação e se espalhem pela terra.

Um das contradições em que o Antigo Testamento incorre nesta história é que no texto de origem “Yahveista”, a seguir a este relato, é contado que Deus ordenou ao Profeta Noé que levasse consigo sete animais de cada um dos por Ele considerados “puros” e dois de cada um dos “impuros”. Isto é uma contradição relativamente ao texto acima. Além disso, no Antigo Testamento, a duração do Dilúvio é igualmente diferente. De acordo com o relato Yahveista, a subida das águas leva 40 dias enquanto para os leigos leva 150.

Algumas partes do Antigo Testamento relacionadas com o Dilúvio de Noé são como se segue:

<< Então disse Deus a Noé: o fim de toda a carne é vindo perante a minha face; porque a terra está cheia de violência; e eis que os desfarei com a terra.

Faze para ti uma arca da madeira de Gofer: farás compartimentos na arca, e a betumarás, por dentro e por fora, com betume.

E desta maneira a farás: de terezentos côvados o cumprimento da arca, e de cinquenta côvados a sua largura, e trinta côvados a sua altura.

Farás na arca uma janela, e de um côvado a acabarás em cima; e a porta da arca porás ao seu lado; far-lhe-ás andares baixos, segundos e terceiros.

Porque eis que Eu trago um dilúvio de águas sobre a terra, para desfazer toda a carne em que há espírito de vida debaixo dos céus: tudo o que há na terra expirará.

Mas contigo estabelecerei o meu pacto; e entrarás na arca, tu e os teus filhos, e a tua mulher, e as mulheres dos teus filhos contigo.

E de tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, meterás na arca, para os conservares vivos contigo; macho e fêmea serão...

... Assim fez Noé: conforme a tudo o que Deus lhe mandou, assim o fez>> ─ (Génesis, 6 / 13-22)

─ << E a arca repousou, no sétimo mês, no dia dezassete do mês, sobre os montes de Ararat>> ─ (Génesis, 8 / 4)

─ << De todo o animal limpo tomarás para ti sete e sete, macho e fêmea; mas, dos animais que não são limpos, dois, o macho e sua fêmea.

Também das aves dos céus sete e sete, macho e fêmea, para se conservar em vida a semente sobre a face de toda a terra>> ─ (Génesis, 7 / 2-3)

─ << E eu, convosco, estabeleço o meu convénio, que não será mais destruída toda a carne pelas águas do dilúvio; e que não haverá mais dilúvio, para destruir a terra>>. ─ (Génesis, 9 / 11)

Segundo o Antigo Testamento, de acordo com o veredicto “cada coisa que está (na) terra perecerá” devido a um dilúvio universal, todas as pessoas foram  punidas, e as únicas que poderiam sobreviver seriam as que tinham embarcado na arca com o Profeta Noé.

 

O Dilúvio no Novo Testamento

A Bíblia que temos hoje em dia não é um Livro Sagrado na verdadeira acepção da palavra. Sendo constituído pelas palavras e acções de Jesus (Issa. a.s.), o Novo Testamento inicia com quatro “Evangelhos” escritos em meados do século II após a morte de Jesus por pessoas que nunca o viram, nem sequer se encontraram na companhia dele; nomeadamente, Mateus, Marco, Lucas e João. Existem contradições óbvias entre estes quatro Evangelhos. Em particular, o Evan-gelho escrito por João difere grandemente dos outros três (Evangelhos Sinópticos) que se assemelham muito entre si. Os outros livros do Novo Testamento são constituídos pelas cartas escritas pelos apóstolos ou por Saul de Tarso (mais tarde chamado São Paulo) descrevendo as acções dos apóstolos após a morte de Jesus. (11-A)

Assim, a Bíblia actual não é um texto Sagrado, mas antes um livro histórico.

No Novo Testamento, o Dilúvio de Noé é sucintamente descrito da seguinte forma; o Profeta Noé foi enviado a uma comunidade desencaminhada e desobediente, mas as suas gentes não o seguiram e prosseguiram com as suas perversidades. Em vista disto, Deus fez pagar aqueles que rejeitaram a fé com o Dilúvio e salvou o Profeta Noé e os crentes colocando-os na Arca. Seguem-se alguns capítulos do Novo Testamento relacionados com o assunto:

─ << E, como foi nos dias de Noé¸ assim será, também, a vinda do Filho do homem. Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca. E não o perceberam, até que veio o dilúvio e os levou a todos, assim será, também, a vinda do Filho do homem.>> ─ (Mateus, 24 / 37-39)

─ << E não perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noé, pregoeiro da justiça, com mais sete pessoas, ao trazer o dilúvio sobre o mundo dos impíos>> ─ (Segundo Pedro, 2 / 5)

─ << E como aconteceu nos dia de Noé, assim será, também, nos dis do Filho de homem. Comiam, bebeiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio, e os consumiu todos>> ─ (Lucas, 17 / 26-27)      

─ << Os quais, noutro tempo, foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé¸ enquanto se preparava a arca, na qual poucas (isto é oito) almas se salvaram pela água>> ─ (Primeiro Pedro, 3 / 20)          

─ << Eles voluntariamente ignoram isto: que, pela palavra de Deus, já desde a antiguidade existiram os céus e a terra, que foi tirada da água e no meio da água subsiste. Pelas quais coisas pereceu o mundo de então, coberto com as águas do dilúvio>> ─ (Segundo Pedro, 3 / 5-6)

 

O Relato do Dilúvio em Outras Culturas

Suméria: Um deus chamado Enlil anuncia ao povo que deuses pretendem destruir a humanidade, mas que ele tenciona salvá-los. O herói desta história é Ziusudra, o rei devoto da cidade de Sippur. O deus Enlil diz a Ziusudra o que fazer para se salvar do Dilúvio. O texto relacionado com a construção da embarcação não está presente, mas o facto da existência de semelhante parte é revelado nas partes onde é relatado o salvamento de Ziusudra. Confiando na versão Babilónica do Dilúvio, pode-se chegar a conclusão de que na versão Suméria completa do evento, deveriam existir muitos mais detalhes explicativos do motivo do Dilúvio e da construção da embarcação.

Babilónia: Ut-Napishtim é o correspondente Babilónio do herói Sumério do Dilúvio, Ziusudra. Outro personagem importante é Gilgamesh. Segundo a lenda, Gilgamesh decide procurar os seus antepassados para junto deles encontrar o segredo da imortalidade. É avisado dos perigos e dificuldades de tal jornada. É-lhe dito que a viagem que vai iniciar fá-lo-á passar por cima das “Montanhas Mashu e das águas da morte”; e que semelhante périplo até então só tinha sido concluído pelo (deus-Sol) deus Shamash. Todavia Gilgamesh enfrenta todos os perigos da viagem e consegue alcançar Ut-Napishtim.

O texto encontra-se cortado na parte em que se relata o encontro entre Gilgamesh e Ut-Napishtim; e quando se regressa à parte legível, Ut-Napishtim está prestes a partilhar com Gilgamesh que “os deuses reservam para si o segredo da morte e da vida” (que não o davam as pessoas). Perante isto, Gilgamesh pergunta a Ut-Napishtem como foi que este adquiriu a imortalidade; e Ut-Napishtim relata-lhe a história do dilúvio que também é mencionado nas famosas “doze tábuas” do épico de Gilgamesh.

Ut-Napishtim inicia o seu relato pela afirmação de que a história que vai contar a Gilgamesh é “algo secreto, um segredo divino”. Ele conta que provém da cidade de Shuruppak, a mais antiga das cidades da terra de  Akkad. Segundo a sua descrição, o deus “Ea” tê-lo-á contactado através das paredes de um abrigo feito de canas e declarou-lhe que os deuses tinham decretado que todas as formas de vida seriam destruídas por um dilúvio; mas a razão para a sua decisão não é explicada no Dilúvio Babilónio, assim como no Sumério. Ut-Napishtim diz que “Ea” lhe sugeriu que construisse uma embarcação onde reunisse todas as “sementes de seres vivos”. Ele informa-o do tamanho e forma da embarcação; segundo isto, a largura, comprimento e altura da embarcação são iguais entre si. A tempestade tudo devasta ao longo de seis dias e seis noites. No sétimo dia acalma. Ut-Napishtim verifica que no exterior, tudo estava “transformado em lama pegajosa”. A embarcação está assente no Monte Nisir.

De acordo com os registos Sumérios e Babilónios, Xisuthros ou Khasisatra é salvo do Dilúvio por uma embarcação com 925 metros de comprimento, juntamente com a sua família, amigos, pássaros e alguns outros animais. Diz-se que “as águas estendiam-se aos céus, os oceanos cobriam as costas e os rios transbordavam dos seus leitos”. A embarcação fica então assente na montanha Corydae.

Segundo os registos Assírio-Babilónios, Ubar-Tutu ou Khasisatra é salvo conjuntamente com a sua família, criados, bandos e animais selvagens, por uma embarcação de 600 cúbitos de comprimento por 60 cúbitos de altura e largura. O Dilúvio dura 6 dias e 6 noites. Quando a embarcação assenta no Monte de Nizar, a pomba que foi solta regressa mas o corvo não.

Segundo alguns registos Sumérios, Assírios e Babilónios, Ut-Napishtim e sua família sobrevivem ao Dilúvio que dura 6 dias e 6 noites. É dito: “No sétimo dia Ut-Napishtim olhou para fora. Tudo estava silencioso. O homem tinha-se novamente transformado em barro”. Quando a embarcação assente no Monte Nizar, Ut-Napishtim liberta um pombo, um corvo e um pardal. O corvo permanece para se banquetear com os cadáveres, mas os outros dois pássaros não regressam.

Índia: Nos épicos indianos Shatapatha, Brahmana e Mahabharata, o homem chamado Manu é salvo, juntamente com Rishiz, do dilúvio. De acordo com a lenda, um peixe pescado por Manu, cuja vida é por este poupada, repentinamente aumenta de tamanho e diz-lhe que construa um barco. Este peixe é encarado como sendo uma aparição do deus Vishnu. O peixe conduz o barco por entre ondas gigantescas, conduzindo-o para norte, para a montanha Hismavat.

Gales: Segundo as lendas das regiões galesas da Grã-Bretanha, Dwynwen e Dwyfach escapam da grande catástrofe com o auxílio de um barco. Quando as terríveis inundações causadas pelo transbordar de Llynllion, o Lago das Ondas, cessam, Dwynwen e Dwyfach iniciam a procriação de todos os Britânicos.    Escandinávia: As lendas nórdicas. Edda relatam que Bergalmir e sua mulher se salvam do dilúvio num grande barco.

Lituánia: Nas lendas lituanas é dito que alguns casais e pares de animais se salvam refugiando-se numa caverna no topo de uma alta montanha. Quando os ventos e as torrentes de água, que duram 12 dias e 12 noites, se aproxirmam do topo da alta montanha e ameaçam engolir os que aí se refugiaram, o Criador envia-lhes uma concha gigante. Aqueles que se encontravam na montanha são salvos por embarcarem nessa concha gigante.

China: Fontes chinesas lembram que alguém chamado Yao, juntamente com 7 outras 7 pessoas ou Fa Li, com sua mulher e filhos, escapam das inundações e terramotos num barco à vela. Diz-se que “toda a terra estava em ruínas. As águas tudo cobriram”. Por fim, as águas baixam.

O Dilúvio de Noé na Mitologia Grega: O “deus” Zeus decide destruir o povo, que dia a dia se tornava mais pecador, por intermédio de uma inundação. Só Deucalio e sua mulher Pyrrha puderam escapar do dilúvio, pois o pai deste, Prometeu, o avisou para que construísse uma embarcação. O casal desembarca no Monte Parnassos no 9° dia a seguir ao embarque.

Todos estes relatos revelam uma realidade concreta. Na história, cada comunidade recebeu a mensagem da revelação Divina, e foi assim que muitas vieram a tomar conhecimento do Dilúvio. Infelizmente, assim como as gentes se afastaram da essência da revelação Divina, assim o relato do Dilúvio sofreu diversas alterações, e acabou por se transformar em lenda e mitologia. A única fonte em que podemos encontrar a  verdadeira história do Profeta Noé e o seu povo rebelde, é o Alcorão, que é, actualmente, a única fonte imaculada da revelação Divina. Esta particularidade do Alcorão dá-nos a informação correcta, não só àcerca do Dilúvio de Noé, mas também àcerca de outros acontecimentos históricos e povos. Nos seguintes capítulos, reveremos esta informação verdadeira.

 

 
    

 

1. M.Mallowan, Nuh’s Flood Reconsidered, p.66.
2. Idem.
3. Muazzez Ilmiye Cig., The Roots of Qur’an, Old Testament an New    Testament in Sumer, 1996.
4. W. Keller, The Bible as History; a Confirmation of the Book of Books, pp.25-29.
5. M. Mallowan, Nuh’s Flood Reconsidered, p.70.
6. Werner Keller, The Bible as History; a Confirmation of the Book of Books, pp. 23-32.
7. “Kish”, Britannica Micropaedia, V. 6, p.893.
8. Shuruppak”, Britannica Micropaedia, V. 10, p.772.
9. Max Mallowan, Early Dynastic Period in Mesopotamia, p.238.
10. J.Campbell, Eastyern Mythology, p.129.
11. Bilim ve Utopya, n.19.